domingo, 12 de novembro de 2006

O buraco em baixo do rodapé

Dois anos atrás, depois de uma separação, mudei de apartamento e resolvi morar num conjugado 5 vezes menor do apartamento que morava antes. Resolvi fazer uma obra para deixá-lo mais confortável e chamei um arquiteto amigo meu.

Foi uma obra radical, pois o arquiteto resolveu mudar a geografia do conjugado, criando um conceito baseado na única entrada de luz do imóvel, portanto tudo foi abaixo. Depois de seis meses dei a obra como concluída, pois segundo este mesmo arquiteto, obra não se termina, se abandona.

Fiquei muito feliz com o resultado, principalmente pelo conceito desenvolvido, estou contente de morar aqui e não tenho a menor vontade de mudar-me para um lugar maior. Bom, vamos a história do buraco do rodapé.

Uma amiga minha veio visitar o apartamento no término da obra. Ela entrou, olhou para um lado, olhou para o outro, para cima, para baixo e disse: "têm uns buracos entre o piso e o rodapé". ??? !!! Ela não é da área de construção civil nem decoradora, mas o comentário me chamou a atenção.

Eu esperava um elogio pela obra ou pelo conceito, mas ela simplesmente achou um defeito. Confesso que também tinha visto alguns buracos de 1 ou 2 milímetros, falta de acabamento do empreiteiro, mas não poderia ser o único comentário da obra. Bom, acho que essa amiga não estava em seus melhores dias e acabou fazendo esse comentário. Ela continua sendo minha amiga e agora gosta muito do apartamento. Ah, os buracos continuam aqui e não me causam nenhum trantorno.

Mas porque conto esta história, porque o comentário do buraco do rodapé, que é um fato, parece um pouco de como a nossa imprensa vem se portando. Ela encontra um pequeno detalhe, um fato, em alguma notícia e acaba destacando apenas esse detalhe e deixando a grande obra de lado, ou melhor, para o final do texto.

Resolvi contar esta história depois de ler a postagem: Choque de impressão, no blogue do Gadelha sobre a forma que a nossa imprensa tem descrito e escolhido os fatos. Também vale a leitura no blogue do Nassif da postagem: A mídia e os direitos fundamentais.

Para vender jornal, se a obra do meu apartamento fosse matéria, a manchete seria mais ou menos assim:
Depois de seis meses e gastos astronômicos, o que se vê são buracos no rodapé

4 comentários:

Julia disse...

Ola Peter!

Que bom que vc gostou do meu blog, fico muito feliz.
E vim aqui ver o seu e ele é muito muito legal e super bem escrito. Agora tenho que ler os outros posts.

Parabens e abracos,
Julia

ipaco disse...

Bela comparação, Peter! Ao olhar os buracos, muitas vezes a imprensa perde de vista o panorama geral. E o pior é que muitas vezes faz isso de forma consciente, com o intuito de manipular ou vender mais jornal. Uma coisa que me anima, no entanto, é a profusão de blogs que estão criticando esse tipo de comportamento.

abração
pt

PeterCor disse...

Obrigado pela visita Julia e verei se coloco uma receita aqui também.

Paulo, estou cada vez mais viciado em blogue, pois acredito que quando alguém perde a mão logo aparece o remédio para botar as coisas nos eixos. Neste caso foi a imprensa / blogues.

NIVALDO RIBEIRO disse...

hahahahaha... sensacional! Adorei a comparação.